Reorganizar as dívidas sem deixar faltar dinheiro para a próxima safra será um dos principais desafios da política agrícola em 2027. Entidades de produtores e integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) discutiram nesta semana medidas para melhorar o financiamento, ampliar o seguro rural e dar previsibilidade aos investimentos. A pauta reúne problemas que se encontram no caixa da propriedade: compromissos antigos, despesas do novo plantio e exposição às perdas climáticas.
As demandas foram apresentadas em encontros com representantes do setor produtivo, encerrados na quinta-feira (22), em São Paulo, com participação da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp). As propostas deverão orientar as cobranças ao Congresso na legislatura que começa em fevereiro.
Os números oficiais ajudam a dimensionar o desafio. Entre julho e setembro, a agricultura empresarial contratou R$ 107,1 bilhões, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Desse montante, R$ 50,3 bilhões, ou 46,9%, foram obtidos por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs), títulos usados no financiamento da atividade. O custeio convencional somou R$ 36,4 bilhões.
O balanço inclui produtores médios e demais produtores empresariais, além das operações com CPR. Portanto, não corresponde exclusivamente a empréstimos bancários subsidiados nem abrange toda a agricultura familiar. A composição mostra a importância de discutir as condições dos diferentes instrumentos disponíveis, além do volume anunciado a cada Plano Safra.
Isan Rezende
“Renegociar a dívida precisa devolver ao produtor condições de trabalhar. Se a parcela antiga for apenas empurrada para a frente, mas continuar incompatível com a receita da fazenda, o problema reaparece na próxima colheita. É necessário olhar o endividamento completo, o custo da nova safra e o dinheiro que efetivamente estará disponível para pagar os compromissos”, afirma Isan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT).
O alongamento dos vencimentos, isoladamente, não resolve todas as situações. A reorganização depende também dos juros, das garantias exigidas e da capacidade de gerar receita. Uma prestação menor pode aliviar o desembolso imediato e, ao mesmo tempo, elevar o custo total do financiamento quando o prazo aumenta.
Na outra ponta, a falta de proteção contra perdas mantém o produtor exposto a novas dificuldades. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), pelo qual o governo paga parte do preço da apólice, alcançou 42.026 produtores e aproximadamente 3,2 milhões de hectares em 2025, segundo relatório oficial de monitoramento do Mapa.
Em 2024, haviam sido atendidos 86.443 produtores, com cerca de 7,3 milhões de hectares protegidos. A redução foi superior à metade nos dois indicadores. Esses números se referem ao seguro apoiado pelo programa federal, não à totalidade das apólices rurais existentes no país.
O documento do ministério aponta insuficiência orçamentária e registra que parte dos agricultores precisou contratar proteção sem o auxílio federal. Em 2025, foram aplicados R$ 565,4 milhões em subvenção, com R$ 17,8 bilhões em capital segurado.
“O seguro precisa estar disponível quando o produtor planeja a lavoura. Saber se haverá subvenção, qual será a cobertura e quanto vai custar permite decidir antes de assumir a despesa. Uma política estável dá segurança para investir e ajuda a evitar que uma perda climática se transforme em dívida acumulada por vários anos”, avalia Rezende.
A discussão de 2027 já parte de uma mudança legal. Sancionada em setembro, a Lei nº 15.526 reformulou o marco do seguro rural, estabeleceu proteção orçamentária para a subvenção e previu condições diferenciadas de crédito para operações amparadas por seguro.
A legislação também alterou as regras do fundo de cobertura suplementar, destinado a reforçar a capacidade do sistema de enfrentar perdas. Segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep), diferentes aspectos ainda dependem de regulamentação. A aprovação da lei, portanto, precisa ser acompanhada de recursos e medidas que permitam sua aplicação.
Outra frente é o investimento. Dos recursos contabilizados pelo Mapa entre julho e setembro, R$ 7,4 bilhões foram destinados a máquinas, equipamentos, irrigação e modernização das estruturas produtivas. São aplicações cujo retorno ocorre ao longo de vários anos e exige compatibilidade entre o prazo do financiamento e o resultado esperado.
“A agenda para 2027 deve ser medida pelo que muda dentro da propriedade: acesso ao crédito em condições viáveis, seguro que funcione e regras claras para investir. O produtor precisa saber quanto custa financiar, quais garantias está oferecendo e como pagará a operação. Essa previsibilidade permite melhorar a produtividade e planejar além da próxima safra”, afirma Rezende.
Parte dessas decisões dependerá do Congresso, especialmente na definição do Orçamento e na análise de propostas legislativas. Outra parcela cabe ao Executivo, ao Conselho Monetário Nacional e às instituições financeiras. Para o produtor, o resultado será percebido nas condições efetivas de contratação: taxa, prazo, cobertura e disponibilidade dos recursos antes do início das operações no campo.
Fonte: Pensar Agro
Fonte:rotamt



