O milho produzido no Piauí começou a percorrer de trem parte do caminho até as granjas cearenses, abrindo uma alternativa para aproximar áreas produtoras de alimentos e mercados consumidores do Nordeste. Ainda em testes, a Transnordestina já transportou milho e sorgo entre os dois estados. A próxima etapa é ampliar esse serviço e concluir a ligação com o Porto do Pecém, criando também uma saída para exportação e uma entrada de fertilizantes.
Para o agro regional, a importância da ferrovia começa antes do porto. Agricultores precisam vender a colheita, enquanto criadores de aves, suínos e outros animais dependem do abastecimento de grãos para ração. Conectar essas duas pontas amplia as opções de comercialização e transporte dentro do próprio Nordeste.
A primeira viagem experimental, em dezembro de 2025, levou mil toneladas de milho por 585 quilômetros, entre Bela Vista do Piauí e Iguatu, no Ceará. Em janeiro, uma nova operação transportou sorgo destinado a granjas, segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.
O mercado produtor tem dimensão para sustentar a discussão sobre novas rotas. Em outubro, o governo piauiense divulgou estimativa de 7,58 milhões de toneladas de grãos em 2026, com base no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A ferrovia oferece uma alternativa para disputar parte desse escoamento, conforme a localização das fazendas e as condições comerciais.
O benefício esperado tem duas direções. Na saída, o trem pode levar grãos aos compradores regionais e ao litoral. No retorno, o transporte de fertilizantes permite organizar o abastecimento das lavouras. Aproveitar cargas nos dois sentidos ajuda a utilizar a estrutura ferroviária, embora a vantagem para cada produtor dependa dos preços e dos trajetos contratados.
Essa integração já foi ensaiada nas primeiras viagens. Caminhões buscaram os grãos nas fazendas e os levaram ao terminal ferroviário no Piauí. Depois do percurso de trem, a carga voltou aos caminhões em Iguatu para chegar às unidades consumidoras no Ceará.
O modelo mantém espaço para o transporte rodoviário e concentra no trem o percurso de maior distância. Para o agricultor, a comparação deve considerar a viagem inteira: fretes nas duas pontas, movimentação nos terminais, armazenagem e prazo de entrega. É essa soma que mostrará a economia efetiva.
A expansão da operação depende agora da conclusão das próximas etapas. Segundo atualização da Secretaria da Infraestrutura do Ceará, divulgada em 5 de outubro, a primeira fase tinha 832 quilômetros executados, de um total de 1.053 quilômetros entre Paes Landim, no Piauí, e Pecém. Os outros 221 quilômetros estavam em obras.
A previsão anunciada para essa etapa é o fim de 2027. O Ministério da Integração informa 2028 como horizonte de conclusão integral da ferrovia, cujo traçado prevê 1.206 quilômetros entre Eliseu Martins, no Piauí, e Pecém, passando por Pernambuco.
A estrutura portuária também está em implantação. No Complexo do Pecém, um terminal privado com investimento previsto de R$ 1,3 bilhão terá instalações para receber grãos e movimentar outras cargas. O início das operações está projetado para 2028. A combinação entre ferrovia e terminal é necessária para transformar a nova rota em alternativa de exportação.
O orçamento da Transnordestina divulgado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) é de R$ 15 bilhões. Em setembro, a autarquia informou que haviam sido liberados R$ 6,2 bilhões pelo Fundo de Desenvolvimento do Nordeste e R$ 816 milhões pelo antigo Fundo de Investimentos do Nordeste. Esses valores representam duas fontes de financiamento, não o total de gastos do empreendimento.
Iniciada em 2006, a obra atravessou revisões de custo e cronograma. Os prazos atuais são previsões de entrega e dependem da continuidade dos recursos, da execução dos trechos restantes e da preparação dos terminais. Os testes com grãos, contudo, já permitem avaliar percursos e organizar o atendimento aos compradores.
Para os produtores, a oportunidade está em ganhar mais uma opção de venda e abastecimento. A contratação regular do transporte, com tarifas e frequência conhecidas, será o passo necessário para que a aproximação entre lavouras, granjas e portos apareça também na conta da propriedade.
Fonte: Pensar Agro
Fonte:rotamt



